Bitcoin é uma bolha?



  

Bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas são uma bolha? Ou apenas um mercado muito promissor em formação?

Antes de começarmos a analisar a existência de bolhas entre as criptomoedas, é necessário dizer: este é um mercado nascente, em pleno crescimento. A tecnologia é nova, estão surgindo várias moedas com propostas diferentes, e até mesmo a especulação é incipiente, até pelo fato de que ainda é difícil, para pessoas comuns, comprarem e guardarem criptomoedas. Mas uma coisa é certa: trata-se de uma tecnologia que pode mudar, e muito, o próprio conceito de moeda, principalmente num momento em que vários governos do mundo consideram acabar com as cédulas em papel. Estônia (Estcoin) e Índia (Lakshmi) chegaram a anunciar a criação de criptomoedas estatais próprias.

Por se tratar de moedas com uma dinâmica própria, com inflação monetária definida em algoritmo e praticamente impossível de ser modificada, Bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas apresentam uma oferta extremamente previsível, reduzindo enormemente a incerteza econômica. São imunes a políticas monetárias, de câmbio e não estão expostas a crises de dívida soberana. Pelo contrário: podem se beneficiar de crises nas moedas estatais, fiduciárias. A ponto de Bill Gates, da Microsoft, e Richard Branson, da Virgin, terem afirmado que bitcoin é melhor que dinheiro. Por isso, é bom ficar atento.

Também é salutar revisitarmos o conceito de bolha especulativa: trata-se de algo que é praticamente um consenso permeando todo um mercado ou uma sociedade, com preços que refletem expectativas irreais ou improváveis, muito acima de seus fundamentos ou potencial real. Neste sentido, temos duas perguntas:

  1. Há um consenso de que as criptomoedas vão só subir? Difícil dizer, mas um sinal vermelho é que muitas pessoas comuns começam a ver criptomoedas como investimento seguro.
  2. As perspectivas de crescimento futuro estão exageradas? Por se tratar de tecnologia nova, reconhecidamente disruptiva até por bancos centrais, a resposta é não. O mercado ainda é muito pequeno, mesmo considerando que a tecnologia possa atingir 10% do potencial de previsões conservadoras.

Em consequência, tudo leva a crer que não há, de fato, uma bolha especulativa no mercado de bitcoin ainda. O valor de mercado, como um todo, ainda é muito baixo para tanto. O que não quer dizer que a criptomoeda necessariamente seja a vencedora deste mercado.

Quando comparadas a outros ativos, o valor de mercado das criptomoedas é irrisório. Temos, hoje, US$ 9 trilhões de dólares em ouro; o M1 (cédulas e conta corrente) dos EUA é de US$ 3,5 trilhões; na China e Zona do Euro, cerca de US$ 8 trilhões em cada; as 60 maiores bolsas de valores do mundo concentravam US$ 60 trilhões em ativos no começo de 2016 (só a Bovespa concentrava mais de US$ 500 bilhões, isso com o mercado deprimido da época, quando a bolsa brasileira se tornou muito pequena em cenário global). Ou seja: se cumprirem todo seu potencial, de se tornarem uma espécie de bolsa de valores atrelada a uso como dinheiro para pagamentos do dia a dia, os atuais pouco mais de US$ 100 bilhões de valor de mercado são muito baixos. Se o Bitcoin conseguir atingir US$ 1 ou US$ 2 trilhões de valor de mercado, estamos falando de um preço na casa de US$ 100 mil por unidade. Mesmo Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, que chamou o bitcoin de fraude e afirmou que vai entrar em colapso, reconhece que pode chegar a isso.

No entanto, há alguns sinais claros de bolhas nas criptomoedas, em situações isoladas, e que podem afetar, moderadamente, o preço do Bitcoin (falaremos mais sobre isso adiante). Há moedas que só são negociadas por estarem lá, com projetos parados e sem casos de uso no mundo real. Há ETFs de Bitcoin com um valor descolado do ativo que têm em mãos (configurando um sinal clássico de bolha, quando o ativo não corresponde ao valor fundamental). A questão toda é separar os projetos bons (e eles existem, em boa quantidade) dos ruins e saber a hora de sair de cada posição.

Neste artigo, vamos fazer uma análise fundamental bastante aprofundada. É algo extremamente técnico, talvez difícil de ser entendido por quem ainda não é iniciado no mercado, mas ainda assim necessário para que se possa avaliar o potencial e os riscos envolvidos em cada situação. De todo modo, o leitor leigo pode considerar este texto uma porta de entrada para entender melhor o mercado de criptomoedas e saber que conceitos devem ser estudados por quem quer se aprofundar no assunto.

Bitcoin

Bitcoin e Ethereum

Bitcoin é a porta de entrada, a moeda que o mundo inteiro compra inicialmente para depois adquirir os outros ativos (estes sim, com enorme potencial para formar bolhas individualmente). Também é a criptomoeda com maior número de casos de uso no mundo real, para transações comuns, como compra de bens e serviços e transferências internacionais de dinheiro. Vai continuar assim? Não sabemos, mas se Ethereum ou outras ganharem mais pares com moedas fiduciárias (emitidas por governos, como dólar, real, iene, rublos, etc.), no mundo todo, a demanda do Bitcoin pode diminuir, pois este intermediário poderia ser eliminado. Neste caso, o Bitcoin pode mesmo não ser o vencedor. E o Ethereum corre o mesmo risco, em longo prazo (mesmo que os ativos vencedores sejam criados em seu blockchain). Cabe lembrar que a Bittrex, uma das maiores exchanges (casas de câmbio para criptomoedas), já anunciou o Any2Any, que possibilita negociar qualquer moeda diretamente, sem passar por Bitcoin ou outros pares, capaz de eliminar quaisquer intermediários, se houver liquidez.

Ethereum, por enquanto, é porta de entrada para ICOs e, em alguns casos, para criptomoedas mais bem estabelecidas (nas exchanges, ainda, é mais comum comprar ativos, mesmo que baseados em Ethereum, com Bitcoin, mesmo).

Além de Bitcoin e Ethereum

O mercado de criptomoedas não se resume somente a Bitcoin e Ethereum. Na verdade, já há perto de 1000 criptomoedas diferentes. A maioria sem grandes chances no longo prazo, mas há algumas promissoras, como Waves, Ripple, Monero, Iota, Nxt, e outras.

Para não alongar demais o artigo, vamos analisar os fundamentos apenas destas, embora existam, certamente, vários outros projetos muito interessantes.

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Waves e Nxt

Waves e Nxt são parecidas com Ethereum, mas ainda em estágio bem inicial. Embora permitam que ativos sejam criados a partir de sua estrutura de dados (o blockchain), um problema sério em ambas é ainda não suportarem smart contracts (um dispositivo que permite que a criptomoeda se comporte como um ativo contratual, como uma ação, com regras, em software para distribuição de lucros e dividendos, por exemplo, ou outras informações). No entanto, Waves já anunciou que os smart contracts estão em desenvolvimento e que seguirão modelos específicos de regras, sem necessidade de programação.

Ambas são baseadas em algoritmos classificados como “Prova de Posse” (uma tradução livre de Proof of Stake, que literalmente significa “Prova de Aposta”. O termo vem de um jargão do mercado de ações, “Stake Holder”, que significa alguém envolvido com o projeto, seja com ações, seja com trabalho, compreendendo funcionários e acionistas) ao contrário de Bitcoin e Ethereum, que são por “Prova de Trabalho” (Proof of Work). Na “Prova de Posse”, o detentor da moeda tem um incentivo a mantê-la em carteira, e seus fundos são usados para validar outras transações, rendendo uma espécie de juros para quem as detém. Já na “Prova de Trabalho”, há a figura do minerador, um indivíduo ou empresa que detém máquinas poderosas, capazes de fazer cálculos matemáticos difíceis definidos por consenso, que realizam a validação de transações, independente do montante de Bitcoins e Ethereum em sua propriedade.

Muitos argumentam que a “Prova de Posse” representa um algoritmo superior, que remunera aqueles que fazem poupança na moeda, direciona investimentos para compra da mesma no lugar de computadores potentes, gasta menos energia e é mais segura quanto a tentativas de controle da atividade de “mineração”, embora, por sua simplicidade e sua disponibilidade recente, sua segurança ainda tenha que ser provada (em artigo de 2014 no blog da Ethereum – que está adotando Proof of Stake em parte dos blocos ainda em 2017, num modelo híbrido – são levantadas muitas questões acerca da inviolabilidade do blockchain e outras de ordem econômica. Muitas dessas questões continuam relevantes até hoje).

Recentemente, a rede Burger King da Rússia criou um sistema de cupons (uma criptomoeda, no fundo), baseada em Waves, a Whoppercoin. Isso dá um exemplo do número de usos que as criptomoedas ainda podem ter. Esta plataforma tem um maior número de projetos e está mais desenvolvida que Nxt.

Uma grande vantagem do sistema Waves é que seu sistema permite que se possa realizar “leasing”, uma espécie de cessão de fundos, para os chamados “forjadores”, que agregam fundos de vários usuários e validam transações de terceiros, distribuindo as taxas como se fossem juros. Isso sem a menor possibilidade de que o forjador se aproprie de seus fundos. Afinal, não se trata de um empréstimo, mas sim como uma espécie de declaração de que você, detentor de uma quantia específica de Waves, permite que o “forjador” anuncie para outros que está validando transações com seus fundos, como se fosse uma conta em banco sem possibilidade de confisco. Note-se que Nxt também permite leasing, mas a maneira como é feita, com saques manuais e com uma taxa cobrada (em Waves a taxa só é cobrada quando se realiza o leasing e é muito mais barata – 0.01 waves contra 1 Nxt – mesmo levando-se em conta a cotação das duas moedas. Neste momento, cerca de US$ 0.07 para cada Nxt e US$ 3.50 para cada Wave).

Assim como Bitcoin e Ethereum, ambas as moedas podem acabar se tornando portas de entrada para toda uma classe de ativos e, embora sejam tecnologias muito interessantes, muito de seu atual valor de mercado se deve a especulação. Ainda assim, se forem bastante usadas, podem render uma quantidade previsível de “juros” que permita que possam ter seu valor analisado conforme o fluxo de caixa gerado, de modo similar aos títulos públicos e ações.

Note que Waves e Nxt não são as únicas neste modelo. NEO e NEM são outras dignas de nota.

Monero

Moeda muito interessante, uma variação do Bitcoin com foco em privacidade. Da maneira como é construída, os saldos de cada endereço ficam escondidos atrás de criptografia forte, o que praticamente impossibilita que um terceiro (mesmo instituições governamentais), tome conhecimento da quantia que cada usuário tem (um problema que pode afetar o Bitcoin, se o usuário não tomar as devidas precauções de privacidade).

Além disso, cada transação é realizada, por projeto, através de um sistema denominado “mistura” (“mixing”), baseado nas chamadas “assinaturas por anel” (ring signatures) que faz com que pareça que cada endereço fez negócio com uma quantidade grande de outros usuários, praticamente impossibilitando o rastreio de uma transação. Como se não bastasse, as transações ainda são realizadas por endereços temporários, que só o detentor de cada carteira tem como saber, um limite ainda maior ao rastreamento.

A desvantagem é que, por isso, as transações tendem a ser mais caras, por sua complexidade, e é necessário que o software para utilizar a moeda tenha uma cópia completa do blockchain, o que pode ocupar muito espaço no computador. Além disso, por suas características de privacidade, pode haver um maior escrutínio futuro de governos.

Seu foco e principal caso de uso seria sua utilização como reserva de valor com privacidade absoluta. No entanto, por suas características de privacidade, a possibilidade de ser proibida ou muito regulada por leis contra lavagem de dinheiro e terrorismo (MLTF) é muito maior.

Outras criptomoedas com foco em privacidade são ZCash e Dash.

Ripple

Ao contrário do Monero, no Ripple o foco é na ausência de privacidade. Como moeda direcionada ao uso de bancos e mercado financeiro, por instituições que devem estar de acordo com regulamentos do tipo “KYC” (“Know your customer” ou “conheça seu cliente”), a empresa que o mantém tem investimento da holding Alphabet (dona do Google) e já tem contratos com mais de 90 bancos para transferências internacionais.

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Seu blockchain é construído de maneira mais simples e direta, e pode validar até 1.500 transações por segundo, possibilitando uma escala digna de operadoras de cartão de crédito. Um problema sério que afetou Bitcoin e Ethereum, mas já resolvido pelo Ripple.

Da maneira como é construída, é uma moeda que pode vir a ser utilizada no dia a dia (embora seus desenvolvedores tenham lançado a Stellar Lumens, quase uma versão do Ripple para adoção por pessoas comuns, ainda incipiente).

Iota

Conceito bastante interessante de criptomoeda, usa uma estrutura chamada Tangle, no lugar do Blockchain, permitindo que cada transação seja salva em computadores diferentes e que tenham altíssima escala.

Em sua estrutura, cada usuário na rede precisa validar duas outras transações antes de ter a sua aprovada, possibilitando que sejam gratuitas.

O conceito ganhou tanto apelo que, embora tenha começado a ser negociada ainda em 2017 e somente na Exchange Bitfinex, de Hong Kong, seu valor de mercado rapidamente superou a casa do bilhão de dólares.

No entanto, há dúvidas quanto à viabilidade de sua proposta e mesmo à segurança. Recentemente, sua função hash, usada para codificar suas transações, foi considerada insegura e teve de ser mudada, rapidamente, por seus desenvolvedores (no entanto, o problema foi sanado com sucesso). E mesmo o conceito de tangle ainda precisa ser comprovado em escala.

Ativos baseados em Blockchain (smart contracts)

O Ethereum trouxe duas grandes inovações, responsáveis, em grande parte, pela explosão no número de criptomoedas e os chamados criptoativos:

  • permite que criptomoedas e criptoativos sejam criados com base em blockchain já existente, aproveitando-se de estrutura e mineradores já disponíveis, o que simplifica e torna muito mais barata sua criação e manutenção, além de melhorar a segurança da rede como um todo;
  • a criação dos smart contracts, que permitem, efetivamente, que uma criptomoeda se comporte como um criptoativo. Por exemplo, ações são um contrato, que dão ao detentor poder de voto e direito a dividendos de uma determinada empresa. Os smart contracts, com regras que podem ser programadas, são a versão desses contratos para criptoativos, embora seu uso possa ser ainda mais amplo que isso.

A quantidade e a qualidade desses ativos é determinarão, em grande parte e a longo prazo, para onde o mercado de criptomoedas caminhará. Em grande parte, ainda não são ativos que dão direito a dividendos, comportando-se, em sua maioria, como criptomoedas de uso específico, mesmo porque há uma série de leis e regulamentações, em cada país, que definem regras que devem ser seguidas por empresas para que os direitos dos investidores sejam obedecidos. Essas regras são observadas e/ou definidas por comissões de valores mobiliários, como a CVM brasileira, a SEC americana e outras.

Assim mesmo, dentro da lei ou não, alguns projetos já surgiram prometendo dividendos. O caso mais famoso foi o projeto “The DAO”, que conseguiu angariar mais de US$ 100 milhões em Ethereum, ainda em 2016 (alguns bilhões de dólares hoje). Consistia num sistema de investimento automático que renderia dividendos aos seus investidores e, por uma falha de segurança, foi o responsável pela primeira grande divisão na rede Ethereum, o chamado “hard fork”, dando origem ao Ethereum Classic (mantido por mineradores que não concordaram com o fork). “The DAO” foi considerado como valor mobiliário pela SEC americana e deveria ter passado por controle de investidores qualificados. No entanto, nenhuma ação foi tomada até agora.

Há ativos, como Bankera, que já estão distribuindo dividendos. No momento em que escrevemos este artigo, vemos projetos, como o LAToken, que promete usar os fundos para adquirir imóveis em Los Angeles e distribuidor parcelas de alugueis, convertidos de dólar para Ethereum, aos seus investidores. Monaco, um projeto que visa permitir o uso de cartões de crédito pré-pagos com criptomoedas, também promete dividendos (note que estamos usando esses projetos apenas como exemplo e não endossamos quaisquer destes investimentos).

A criação destes e outros ativos e sua promessa de distribuição de lucros fez com que a cotação do Ethereum disparasse em 2017. Afinal, era preciso adquirir esta criptomoeda para poder participar dos chamados ICOs. Em última instância, são ativos deste tipo que podem levar o mercado de criptomoedas a patamares ainda muito superiores ao que encontramos hoje. Mas o caminho não é sem riscos. Regulamentações e problemas nas próprias plataformas podem fazer com que desvalorizações muito grandes aconteçam no mercado como um todo. A recente proibição dos ICOs pela China comprova isso.

Além disso, há outro risco, que afeta particularmente as moedas de entrada, como Bitcoin e Ethereum: como a arrecadação de fundos, da ordem de milhões de dólares, se deu através delas, há empresas com grande quantidade destas moedas em carteira. Empresas que, para honrar suas promessas durante seus ICOs, precisarão investir estes fundos no desenvolvimento de seus negócios, pagando salários e fornecedores em dólares e outras moedas fiduciárias, ou seja, obrigando-as a vender suas posições. Uma diminuição no ritmo de ICOs pode fazer com que exista uma maior pressão vendedora, potencialmente causando uma baixa em seu valor de mercado. Por outro lado, o surgimento de regulamentações, como a japonesa, que considera o Bitcoin como um meio legal de pagamento, e a aceitação generalizada, por parte de fornecedores e funcionários, de pagamento em criptomoedas, pode fazer com que a pressão vendedora praticamente desapareça, o que possibilitaria um aumento muito grande de preço.

Bitcoin e Ethereum podem se beneficiar de bolhas em criptoativos

Considerando o uso para adentrar o mercado de criptomoedas, Bitcoin e Ethereum ainda são moedas que podem se beneficiar de bolhas. Têm um potencial de valorização atrelado à quantidade e, até em menor grau, à qualidade dos criptoativos envolvidos. Quanto mais desenvolvido o mercado, melhor para as moedas de entrada.

A capacidade dos smart contracts (de sediar uma verdadeira bolsa de valores baseada em blockchain) mal começou a ser explorada; embora a maioria das moedas e ativos de hoje possam ser considerados sem futuro, um sinal indicativo de bolha, a dotcom só estourou quando o market cap da Nasdaq passou de US$ 6 trilhões (voltando para US$ 2 trilhões). Isso a dólar de 2000. Não significa que o mercado das criptomoeda atinja o mesmo valor (na verdade, pode ficar muito aquém disso), mas o estouro pode estar bem longe, e dá para manter um belíssimo lucro mesmo com seu acontecimento.

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Mesmo que a maior parte desses ativos seja simplesmente “lixo”, baseados em projetos que não têm capacidade de gerar valor de longo prazo (algo que também ocorre em bolsas de valores, embora em menor grau pelas exigências regulatórias), seu estouro trará um impacto indireto nas criptomoedas de entrada. Como costumamos verificar no mercado, as pessoas e empresas costumam comprar Bitcoins e Ethereums para especular com estes ativos, depois vendendo-os novamente nas mesmas criptomoedas, para então entrar novamente especulando em outros ativos.

Ou seja, se não há troca por moeda fiduciária, não há uma pressão vendedora nas moedas de entrada, o que faz com que o preço destas não seja impactado por uma venda generalizada de ativos. Além disso, um estouro de bolha nesses criptoativos necessariamente fará com que seu preço desabe em relação a seus pares Bitcoin e Ethereum, o que já foi visto inúmeras vezes no mercado (dados do Coinmarketcap podem comprovar que a cada baixa geral do mercado, a baixa em outros criptoativos é geralmente maior). Isso quer dizer que, caso o investidor decida se retirar completamente do mercado de criptomoedas, o valor de venda de sua posição será menor (provavelmente muito menor) que aquele de compra, gerando um impacto reduzido no preço.

Há riscos regulatórios, principalmente no curto prazo

O investidor em criptomoedas deve, no entanto, tomar plena ciência dos riscos, principalmente de curto prazo, inerentes à criptomoedas. Como dissemos anteriormente, países importantes que proíbam ou restrinjam ICOs ou as próprias criptomoedas, podem impactar fortemente o preço das moedas de entrada. Por exemplo, o volume no mercado diminuiu consideravelmente depois que a China baniu os ICOs, e o Bitcoin perdeu cerca de 30% de seu valor.

Jamie Dimon, o CEO do JPMorgan que citamos no começo deste artigo, embora tenha usado uma retórica seja exagerada, a partir de uma posição em que há conflito de interesse, coloca um ponto válido e importante em seu argumento: o de que governos eventualmente podem banir o bitcoin porque não desejam permitir uma moeda que não possam controlar. Novamente, China comprova isso, e a própria história demonstra, com o curso forçado de moedas (obrigação de uso dentro de um país, para contratos e pagamentos do dia a dia), que esta é uma possibilidade.

Para se ter uma ideia do risco que regulações restritivas podem representar, considere também que a distribuição de Bitcoins e volume de negociação é ainda muito concentrada, embora menor que no começo de 2017. Apenas China, EUA, Japão e Coreia do Sul são, neste momento, países representativos no mercado de Bitcoin, com volume de negócios somados ultrapassando os 95%.

No entanto, o mercado mudou dramaticamente em 2017: até janeiro, 90% dos negócios com Bitcoins eram realizados somente na China. Este número caiu para menos de 10% logo antes da proibição dos ICOs e tende a próximo de zero com o fechamento das exchanges. Ou seja: a queda de 30% no preço do Bitcoin foi até suave. Se os eventos tivessem se desenrolado apenas nove meses antes, não seria exagero traçar cenários de queda de 70% ou mais na cotação da criptomoeda (algo similar ao que já ocorreu em 2013, basicamente pelos mesmos motivos, além da falência da exchange japonesa Mt.Gox). O risco tende a ser mitigado com um volume maior em outros países, principalmente se houver crescimento explosivo na Zona do Euro ou Reino Unido, mas ainda é considerável.

Outra questão que pode impactar, no futuro, é uma melhora na qualidade das moedas fiduciárias, o que pode ocorrer até pela concorrência com as criptomoedas. Um dólar forte pode representar uma menor cotação para estas, assim como acontece com ouro e prata.

Conclusão

Há sinais claros de bolhas nas criptomoedas, o que certamente pode afetar o Bitcoin e o Ethereum. Além disso, não há nenhuma garantia de que essas sejam as moedas vencedoras do mercado nos próximos anos.

No entanto, o mercado ainda é pequeno e nascente e, embora os especuladores já estejam atuando, ainda não há uma quantia significativa de investimento institucional em criptomoedas, embora já tenha começado a ocorrer.

Ou seja, o potencial de valorização ainda é consideravelmente grande, mas também há muitos riscos e volatilidade. O investidor deve ter a cautela de variar seus investimentos e acompanhar o mercado, que muda muito rapidamente. Tecnologias novas, regulamentações e outros eventos neste mercado podem fazer com que mude radicalmente, de maneira imprevisível.

É muito difícil, senão impossível no momento, avaliar o valor de mercado potencial de cada criptomoeda em particular, simplesmente porque não há fluxo de caixa previsível (com possível exceção de Waves e Nxt, vistos acima, que podem se tornar previsíveis). Sendo assim, seu valor de longo prazo dependerá, exclusivamente, de sua adoção e uso em situações reais de mercado, seja para negócios corriqueiros, do dia a dia, seja como reserva de valor. Usamos a comparação com a base monetária dos principais países para avaliar o potencial, mas Bitcoin e outras criptomoedas podem ficar consideravelmente abaixo de tais valores.

Considere este texto como uma análise de tendências, algo possível de acontecer no mercado de criptomoedas, baseadas em situações já conhecidas no momento. Em hipótese alguma deve ser visto como uma recomendação de investimento.



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